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Útero artificial: o que já existe e o que ainda é promessa

Por Leila Alves Pereira5 min de leitura
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Útero artificial: o que já existe e o que ainda é promessa

Resumo em 30 segundos

A Colossal Biosciences diz que, em 24 meses, vai fazer um mamífero nascer de um útero artificial. Veja o que a ciência já conseguiu, como os cordeiros da biobag de 2017, e o que ainda falta para a gestação completa fora do corpo.

Neste artigo

Um útero artificial capaz de levar a gestação de um mamífero do começo ao fim ainda não existe. O que a ciência já conseguiu é manter fetos prematuros vivos por algumas semanas fora do corpo da mãe. A novidade é que a Colossal Biosciences, empresa americana conhecida pelo projeto de trazer de volta o mamute-lanoso, afirma que em 24 meses vai viabilizar o nascimento de mamíferos gestados inteiramente fora do corpo. O anúncio foi feito pelo CEO, Ben Lamm, em entrevista ao podcast Moonshots, e por enquanto é uma meta da empresa, não um resultado publicado.

O que a Colossal Biosciences anunciou

Segundo Ben Lamm, a ideia é cobrir todo o ciclo gestacional "ex utero", expressão em latim que significa fora do útero. Na prática, o embrião seria colocado em um sistema artificial e se desenvolveria ali até o nascimento, sem passar por uma fêmea.

Para a empresa, isso eliminaria a necessidade de usar mães de aluguel biológicas, ou seja, fêmeas de outra espécie que gestariam os animais criados em laboratório. Esse é um gargalo real para quem trabalha com a chamada desextinção: não existe mamute vivo para gestar um filhote de mamute, e uma elefanta levaria cerca de 22 meses para completar a gestação.

A companhia descreve o avanço como um dos grandes marcos tecnológicos de sua trajetória recente. Detalhes técnicos sobre como o sistema funcionaria, porém, não foram apresentados na entrevista.

O que já foi feito: os cordeiros da biobag

O exemplo mais conhecido de útero artificial vem de 2017. Pesquisadores do Hospital Infantil da Filadélfia, nos Estados Unidos, publicaram na revista Nature Communications os resultados de um sistema batizado de biobag.

Era uma bolsa plástica transparente, cheia de um líquido que imitava o líquido amniótico. Os cordeiros, retirados da mãe em um estágio de desenvolvimento equivalente ao de um bebê humano extremamente prematuro, foram colocados dentro dela. O cordão umbilical era ligado a um circuito externo que fazia a troca de oxigênio e gás carbônico, função que normalmente cabe à placenta.

Os animais passaram cerca de quatro semanas na bolsa, cresceram, desenvolveram pulmões e cérebro e até ganharam lã. Foi um resultado marcante, mas com um limite claro: os cordeiros já tinham passado boa parte da gestação no corpo da mãe. A biobag funcionou como uma ponte para prematuros, não como uma gestação completa.

Os outros avanços parciais

Em paralelo, laboratórios de vários países conseguiram cultivar embriões de camundongo fora do útero por alguns dias, chegando a etapas iniciais da formação dos órgãos. Também existem pesquisas com placentas artificiais e dispositivos semelhantes para tentar ajudar bebês humanos muito prematuros. Nenhum desses trabalhos, porém, chegou perto de juntar as duas pontas: o começo da gestação e o nascimento.

Por que fazer a gestação completa é tão difícil

A gestação não é só um ambiente com temperatura e líquido certos. É uma conversa contínua entre o feto e o corpo da mãe. A placenta entrega oxigênio, nutrientes e hormônios na dose exata de cada fase, remove resíduos e ainda protege o feto do sistema imunológico materno.

Na fase inicial, o embrião precisa se implantar em um tecido vivo e formar a própria placenta. Reproduzir isso fora do corpo é um dos maiores desafios, porque não basta uma bolsa: é preciso algo que se comporte como a parede do útero. Já no fim da gestação, o desafio é outro. O feto cresce rápido e exige volumes cada vez maiores de nutrientes e oxigênio.

Entre essas duas pontas há meses de desenvolvimento em que qualquer desequilíbrio pode causar malformações. Por isso, ir dos cordeiros prematuros de 2017 a uma gestação inteira em 24 meses seria um salto muito grande.

A discussão ética sobre o útero artificial

A tecnologia levanta debates em várias direções. Do lado dos defensores, o argumento é que sistemas desse tipo poderiam, no futuro, salvar bebês nascidos muito antes do tempo, ajudar na conservação de espécies ameaçadas e reduzir o uso de fêmeas de outras espécies em pesquisas.

Do lado dos críticos, as perguntas incluem o bem-estar dos animais gestados em sistemas experimentais, a falta de transparência quando anúncios são feitos por empresas privadas antes de qualquer publicação científica revisada e os limites de uma tecnologia que, se um dia funcionar, poderá ser discutida também para humanos. Bioeticistas costumam lembrar que regras claras precisam ser debatidas antes, e não depois, de a técnica estar pronta.

Não há consenso, e a discussão deve crescer conforme as promessas se transformarem, ou não, em resultados concretos.

Como acompanhar a promessa dos 24 meses

A melhor forma de avaliar o anúncio é observar o que vem a seguir. Resultados científicos sólidos costumam aparecer em artigos revisados por outros pesquisadores, com dados que podem ser checados. Também vale prestar atenção em qual animal será usado nos primeiros testes, já que espécies pequenas, com gestação curta, tendem a ser o ponto de partida.

Até lá, o útero artificial segue em dois tempos: um passado com avanços reais, mas parciais, e um futuro que, por enquanto, está nas palavras da empresa.

Perguntas frequentes

Já existe útero artificial?

Existem sistemas experimentais que mantêm fetos prematuros vivos por algumas semanas, como a biobag usada com cordeiros em 2017. Um útero artificial que faça a gestação completa, do embrião ao nascimento, ainda não existe.

O que a Colossal Biosciences prometeu?

O CEO Ben Lamm disse que a empresa pretende, em até 24 meses, viabilizar o nascimento de mamíferos gestados inteiramente fora do corpo, sem uso de mães de aluguel biológicas.

O que foi a biobag?

Foi uma bolsa cheia de líquido semelhante ao amniótico, criada por pesquisadores de um hospital infantil da Filadélfia. Cordeiros prematuros passaram cerca de quatro semanas dentro dela e continuaram se desenvolvendo.

O útero artificial poderia ser usado em humanos?

Hoje não. As pesquisas com foco em humanos buscam apenas ajudar bebês muito prematuros, e ainda estão em fase de estudo. O uso para uma gestação inteira é apenas tema de debate ético.

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