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Dá para traduzir a língua dos animais? O que a comunicação animal já revelou

Por Leila Alves Pereira5 min de leitura
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Dá para traduzir a língua dos animais? O que a comunicação animal já revelou

Resumo em 30 segundos

Um novo XPRIZE de US$ 10 milhões quer premiar quem decifrar a comunicação e o pensamento de animais selvagens. Veja o que a ciência já descobriu, dos cliques dos cachalotes ao uso de IA para achar padrões nos sons.

Neste artigo

Ainda não dá para traduzir a língua dos animais, mas a comunicação animal virou alvo de um prêmio de US$ 10 milhões. O novo XPRIZE, anunciado por Peter Diamandis e financiado pelo empresário Palmer Luckey, quer recompensar quem conseguir decodificar a comunicação e o pensamento de animais selvagens. O desafio parte de décadas de pesquisa que já mostraram que muitos bichos trocam sinais complexos, embora entender o significado deles ainda seja o grande obstáculo.

O que se sabe sobre o novo XPRIZE

A fundação XPRIZE é conhecida por lançar competições com prêmios em dinheiro para resolver problemas difíceis de ciência e tecnologia. Desta vez, a meta é a comunicação entre animais. O anúncio foi feito por Peter Diamandis, criador da fundação, durante um evento com empreendedores de tecnologia, e o valor de US$ 10 milhões será bancado por Palmer Luckey.

Segundo o resumo do anúncio, a ideia também tem um interesse ligado à tecnologia: estudar a inteligência biológica para aprimorar modelos de inteligência artificial. Até agora, porém, as regras detalhadas, os critérios de avaliação e os prazos da competição não foram divulgados nas fontes disponíveis. Por isso, ainda não se sabe exatamente o que um time precisará demonstrar para levar o prêmio.

Animais conversam ou só emitem sinais?

Quase todo animal se comunica de alguma forma. Formigas usam substâncias químicas para marcar trilhas, aves cantam para defender território e atrair parceiros, e macacos emitem alertas diferentes para diferentes predadores. A questão que intriga os cientistas é outra: até que ponto esses sinais têm estrutura, combinação e significado, como acontece numa língua humana.

Um exemplo clássico é a dança das abelhas. Ao voltar para a colmeia, a abelha operária faz um movimento que indica a direção e a distância de uma fonte de alimento. A descoberta rendeu ao zoólogo austríaco Karl von Frisch um Prêmio Nobel em 1973 e mostrou que até insetos transmitem informações bastante precisas.

Isso não quer dizer que exista uma "língua" no sentido humano. Muitos pesquisadores preferem falar em sistemas de comunicação, que podem ser ricos sem ter gramática ou vocabulário iguais aos nossos.

Os cachalotes e o "alfabeto" de cliques

Entre os animais mais estudados nessa área estão os cachalotes. Eles se comunicam com sequências de cliques chamadas codas, trocadas entre membros do mesmo grupo. Há anos, pesquisadores gravam essas conversas no oceano para tentar entender como elas se organizam.

O Projeto CETI, iniciativa científica dedicada a esses animais, é um dos esforços mais conhecidos. Estudos recentes ligados a esse trabalho indicaram que as codas variam em ritmo e andamento de maneiras que se combinam, o que sugere um sistema mais estruturado do que se imaginava. Alguns pesquisadores chegaram a comparar esse conjunto de variações a uma espécie de alfabeto fonético.

Mesmo assim, saber que existe estrutura não é o mesmo que saber o que cada sequência quer dizer. Os cientistas ainda não conseguem afirmar o conteúdo dessas mensagens, e esse é justamente o tipo de salto que um prêmio como o XPRIZE tenta estimular.

Como a inteligência artificial entra na história

Os sons dos animais geram uma quantidade enorme de dados. São milhares de horas de gravação, muitas vezes com ruído, sobreposição de vozes e frequências que o ouvido humano nem consegue captar. Analisar tudo isso manualmente seria praticamente impossível.

É aí que entra a inteligência artificial. Modelos de aprendizado de máquina conseguem separar quem está "falando", agrupar sons parecidos e encontrar padrões repetidos em grandes volumes de áudio. Organizações como o Earth Species Project trabalham justamente com esse tipo de ferramenta para estudar a comunicação de várias espécies.

Pesquisas com elefantes africanos, por exemplo, usaram aprendizado de máquina para analisar chamados e encontraram indícios de que eles usam vocalizações específicas para se dirigir a indivíduos do grupo, algo parecido com chamar alguém pelo nome. Estudos com morcegos também mostraram que as vocalizações mudam conforme o contexto e o destinatário.

Os limites de "traduzir" um animal

Mesmo com IA, há uma barreira importante. Ferramentas de tradução entre línguas humanas funcionam porque existem enormes quantidades de textos com significado conhecido. No caso dos animais, não existe um dicionário de referência. Os cientistas precisam observar o comportamento e o contexto para supor o que um som significa.

Outro desafio é o próprio mundo sensorial de cada espécie. Muitos animais se comunicam por cheiro, vibração, cor ou movimento, além do som. Uma tradução completa teria que levar em conta canais que os humanos mal percebem.

Por fim, há o risco de projetar emoções e intenções humanas nos bichos. Por isso, os pesquisadores costumam testar hipóteses com experimentos, como reproduzir um som gravado e observar a reação dos animais, antes de concluir qualquer coisa. O XPRIZE fala em decodificar não só a comunicação, mas também o pensamento, o que torna o desafio ainda mais ambicioso.

Perguntas frequentes

O que é o XPRIZE de comunicação animal?

É um prêmio de US$ 10 milhões anunciado por Peter Diamandis e financiado por Palmer Luckey para quem conseguir decodificar a comunicação e o pensamento de animais selvagens. As regras e os prazos ainda não foram detalhados nas fontes.

Já existe algum animal cuja "língua" foi traduzida?

Não. Os cientistas já identificaram padrões e estruturas em sinais de várias espécies, como a dança das abelhas e os cliques dos cachalotes, mas uma tradução completa de significados ainda não foi alcançada.

Como a inteligência artificial ajuda a estudar os animais?

A IA analisa grandes volumes de gravações, separa vozes, agrupa sons parecidos e encontra padrões que seriam difíceis de perceber manualmente. A interpretação do significado, porém, ainda depende de observação e experimentos.

Por que os cachalotes são tão estudados?

Porque eles se comunicam por sequências de cliques, as codas, que têm variações organizadas e são trocadas entre membros do mesmo grupo. Isso faz deles um dos melhores candidatos para entender sistemas complexos de comunicação no oceano.

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