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Por que as estrelas piscam e como o telescópio corrige isso

Por Leila Alves Pereira5 min de leitura
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Por que as estrelas piscam e como o telescópio corrige isso

Resumo em 30 segundos

No Chile, o telescópio VLT dispara lasers para criar estrelas artificiais a 90 km de altura. Entenda por que as estrelas piscam e como a óptica adaptativa usa esses pontos de luz para tirar imagens nítidas do universo.

Neste artigo

As estrelas piscam porque a turbulência do ar distorce a luz que vem do espaço, e a óptica adaptativa do telescópio é a técnica que corrige essa distorção em tempo real. No deserto do Atacama, no Chile, o Very Large Telescope (VLT) leva isso a outro nível: ele dispara lasers que acendem átomos de sódio a cerca de 90 quilômetros de altura, criando estrelas artificiais que servem de referência para deixar as imagens do universo muito mais nítidas.

Por que as estrelas piscam no céu

Quem já olhou para o céu numa noite limpa percebeu que as estrelas parecem tremeluzir. Elas não estão mudando de brilho de verdade. O que muda é o caminho que a luz faz até os nossos olhos.

A atmosfera da Terra não é uniforme. Ela é formada por camadas e bolsões de ar com temperaturas e densidades diferentes, que se movem o tempo todo por causa do vento e do calor. Cada um desses bolsões desvia a luz um pouquinho, como acontece quando olhamos o fundo de uma piscina com a água em movimento. Como a estrela está muito longe, sua luz chega como um ponto minúsculo, e esses pequenos desvios fazem esse ponto dançar e oscilar. Os astrônomos chamam o fenômeno de cintilação.

Os planetas, por outro lado, costumam piscar menos. Por estarem mais perto, eles aparecem como pequenos discos, e as distorções de diferentes partes do disco tendem a se compensar.

O problema que isso cria para os telescópios

Para quem só quer admirar o céu, a cintilação é bonita. Para um telescópio gigante, é um problema sério. A mesma turbulência que faz a estrela piscar borra as imagens, espalhando a luz que deveria estar concentrada em um ponto.

Isso significa que, sem correção, um telescópio enorme no chão perde boa parte da nitidez que seu espelho seria capaz de oferecer. Foi por isso que se colocaram telescópios em órbita, como o Hubble, acima da atmosfera. Mas telescópios espaciais são caros e têm tamanho limitado. A óptica adaptativa surgiu como uma forma de ter o melhor dos dois mundos: espelhos imensos em terra e imagens próximas da nitidez do espaço.

Como funciona a óptica adaptativa

A ideia é medir a distorção causada pelo ar e desfazê-la antes que a imagem seja registrada. Para isso, o telescópio precisa de uma referência: um ponto de luz cuja forma ele já conhece. Se esse ponto chega borrado, o sistema sabe exatamente quanto e para onde a atmosfera desviou a luz.

Um sensor analisa essa referência continuamente. Os dados vão para um computador, que calcula a correção e manda o resultado para um espelho deformável. No caso do VLT, esse espelho usa materiais piezoelétricos, que mudam de forma levemente quando recebem uma corrente elétrica. Pequenos atuadores empurram e puxam a superfície do espelho, ajustando sua forma centenas de vezes por segundo para compensar a dança da luz.

O resultado é que a luz das estrelas e galáxias reais, que passa pelo mesmo trecho de atmosfera, chega ao detector já corrigida.

Por que usar uma estrela artificial

No começo, a técnica dependia de uma estrela natural bem brilhante perto do objeto observado. O problema é que, em boa parte do céu, não há uma estrela adequada no lugar certo. A solução foi fabricar uma.

A estrela de laser do VLT, no Chile

O VLT fica no Observatório do Paranal, no deserto do Atacama, um dos lugares mais secos do planeta e com céu muito limpo. Ele é formado por quatro telescópios principais, cada um com espelho de pouco mais de 8 metros de diâmetro.

Para criar a estrela artificial, o observatório aponta lasers de alta potência para o céu. Cerca de 90 quilômetros acima do chão existe uma camada da atmosfera com átomos de sódio, deixados ali em grande parte por meteoros que se desintegram ao entrar na Terra. O laser é ajustado para a cor exata que esses átomos absorvem, um amarelo alaranjado. Quando são atingidos, os átomos brilham, e do chão aparece um ponto de luz que se comporta como uma estrela.

Hoje, o VLT conta com sete lasers, que permitem que os quatro telescópios principais trabalhem com essa técnica ao mesmo tempo. Isso amplia o campo de visão corrigido e aumenta a precisão das observações.

Cuidado com os aviões e o que vem pela frente

Lasers apontados para o céu exigem cuidado com o tráfego aéreo. Por isso, o VLT tem um mecanismo automático que interrompe a emissão quando um avião cruza a área monitorada, evitando qualquer risco para pilotos.

A óptica adaptativa com estrelas de laser se tornou peça essencial da astronomia moderna. Ela permite estudar com detalhe planetas em outras estrelas, regiões onde nascem novas estrelas e os arredores de buracos negros no centro de galáxias. E deve ser ainda mais importante na próxima geração de telescópios gigantes, como o Extremely Large Telescope, que está sendo construído também no Chile.

Perguntas frequentes

Por que as estrelas piscam?

Porque a luz delas atravessa camadas de ar em movimento, com temperaturas e densidades diferentes. Esses bolsões desviam a luz o tempo todo e fazem o ponto da estrela parecer tremeluzir.

O que é óptica adaptativa?

É uma técnica que mede a distorção causada pela atmosfera e a corrige em tempo real com um espelho deformável, deixando as imagens do telescópio muito mais nítidas.

Como um laser cria uma estrela artificial?

O laser é ajustado para a cor que os átomos de sódio absorvem. Ao atingir a camada desses átomos, a cerca de 90 km de altura, ele faz com que brilhem e formem um ponto de luz usado como referência.

Os lasers do VLT são perigosos para aviões?

O observatório tem um sistema automático que desliga os lasers quando uma aeronave passa pela área monitorada, justamente para evitar riscos.

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