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O YouTube quase foi um site de encontros — e fracassou nessa missão

Por Kuraiq5 min de leitura
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O YouTube quase foi um site de encontros — e fracassou nessa missão

Resumo em 30 segundos

O YouTube nasceu como site de encontros em 2005, fracassou completamente e foi reinventado por acidente. Dezoito meses depois, o Google pagou 1,65 bilhão de dólares por ele

Neste artigo

Em fevereiro de 2005, três ex-funcionários do PayPal abriram um escritório na Califórnia com uma ideia que, pelo menos no papel, fazia sentido: um site de encontros baseado em vídeos. O projeto fracassou completamente. E esse fracasso se tornou a segunda plataforma mais visitada do mundo.

A ideia original que ninguém quer lembrar

Chad Hurley, Steve Chen e Jawed Karim saíram do PayPal com energia, experiência em produto digital e uma inspiração clara: o Hot or Not, site que permitia avaliar fotos de pessoas com uma nota de 1 a 10. A proposta deles era levar isso para o vídeo. Mais dinâmico, mais pessoal, mais próximo de uma interação real.

O slogan escolhido para o projeto foi "Tune In, Hook Up". A tradução livre seria algo como "Sintonize e Conquiste". O nome de domínio foi registrado, o servidor foi configurado, o site foi ao ar. Tudo pronto para funcionar.

O problema: ninguém gravava vídeo nenhum.

Diferente de uma foto estática, gravar um vídeo de si mesmo para um site de paquera exige uma combinação improvável de coragem, tempo livre, câmera disponível e disposição para editar ou ao menos não se envergonhar do resultado. Em 2005, sem smartphones, sem stories, sem a cultura do selfie que viria anos depois, essa barreira era enorme. O banco de dados ficou vazio. Os dias passaram. As semanas também.

A tentativa desesperada que não funcionou

Fundadores de startup em desespero costumam fazer coisas que não constam em nenhum livro de metodologia ágil. Hurley, Chen e Karim não foram diferentes.

A solução encontrada foi postar anúncios no Craigslist, o site de classificados que dominava a internet americana da época, oferecendo vinte dólares em dinheiro para qualquer mulher que postasse um vídeo no site. Qualquer vídeo. Sem roteiro, sem tema, sem exigência de qualidade.

Nem assim funcionou.

Vale registrar o que esse momento representa: três pessoas que tinham construído produtos para milhões de usuários no PayPal estavam, semanas depois, literalmente pagando para que alguém usasse o que elas tinham criado. Sem resultado.

É o tipo de situação que a maioria dos empreendedores nunca conta em palestra. Mas é exatamente o tipo de situação que antecede muitas das maiores viradas da história da tecnologia.

A decisão que parecia pequena

Diante do vazio, veio uma mudança de direção que, na época, provavelmente soou como rendição: abrir a plataforma para qualquer tipo de vídeo. Não precisava ser de namoro. Não precisava ser pessoal. Podia ser um clipe de música, uma cena engraçada, um tutorial, um registro qualquer do cotidiano.

Essa decisão transformou o produto de uma categoria estreita, sites de relacionamento, em uma categoria que ainda não tinha nome nem precedente: um repositório público de vídeos para qualquer coisa.

Em 23 de abril de 2005, Jawed Karim foi ao Zoológico de San Diego. Ficou em frente ao cercado dos elefantes e gravou 18 segundos de si mesmo comentando sobre o tamanho dos narizes dos animais. Postou o vídeo com o título "Me at the zoo". Esse vídeo existe até hoje e já acumula mais de 300 milhões de visualizações, segundo dados públicos da própria plataforma.

Não era romântico. Não era um perfil de encontros. Era só um cara num zoológico, falando besteira para uma câmera.

Era exatamente o que o produto precisava.

O crescimento que convenceu o Google a agir rápido

Uma vez que a plataforma foi aberta para qualquer vídeo, o crescimento foi rápido de um jeito que poucos produtos digitais conseguem replicar. As pessoas queriam compartilhar vídeos. Clipes de TV, vídeos de animais, cenas de shows, experimentos caseiros. O problema nunca tinha sido falta de interesse. Era falta de um lugar simples para fazer isso.

O YouTube resolveu um problema real que as pessoas nem sabiam nomear direito: como compartilhar um vídeo com alguém que não estava no mesmo computador.

  • Em julho de 2006, a plataforma recebia aproximadamente 65 mil novos vídeos por dia.
  • Mais de 100 milhões de visualizações aconteciam diariamente.
  • O site tinha se tornado parte do vocabulário cotidiano da internet americana.

O Google percebeu que estava olhando para algo que não conseguiria construir internamente com a mesma velocidade. Em outubro de 2006, apenas 19 meses depois da fundação do YouTube, a aquisição foi anunciada: 1,65 bilhão de dólares em ações pelo site que havia começado como um aplicativo de paquera sem usuários.

O que essa história diz sobre produto e sobre erro

Existe uma versão romantizada dessa história que resume tudo em "pivotaram e deu certo". Mas o que aconteceu é mais interessante do que isso.

Os fundadores do YouTube não tiveram uma visão brilhante sobre o futuro do vídeo online. Eles tentaram uma coisa, falharam, tentaram comprar tração com vinte dólares, falharam de novo, e então removeram a principal restrição do produto por desespero. O sucesso foi consequência de um produto mais simples, não de um produto mais sofisticado.

Há algumas lições concretas que esse caso ilustra melhor do que qualquer framework de inovação:

  1. Restrições artificiais matam produtos. O YouTube estava morto porque os fundadores tinham decidido que ele servia apenas para uma coisa. Quando removeram essa decisão arbitrária, o produto respirou.
  2. O mercado não explica o que quer, ele mostra. Ninguém pediu uma plataforma de vídeos aberta. As pessoas simplesmente começaram a usar quando ela existiu.
  3. Fracasso operacional não é o mesmo que fracasso de mercado. O site de encontros não funcionou porque o comportamento necessário ainda não existia. O comportamento de compartilhar vídeos existia, só faltava infraestrutura.
  4. Timing importa tanto quanto ideia. A mesma proposta lançada dois anos antes, sem banda larga suficiente, teria morrido de forma diferente. Lançada dois anos depois, teria encontrado concorrência estabelecida.

Dezenove meses, 1,65 bilhão de dólares e um vídeo de elefantes

O YouTube de hoje tem mais de 2,5 bilhões de usuários ativos por mês e é a segunda plataforma mais acessada do mundo, atrás apenas do Google, que a comprou. Criadores de conteúdo constroem carreiras inteiras dentro dela. Marcas investem bilhões em publicidade. Governos a regulam. Universidades estudam seus algoritmos.

Tudo começou com três pessoas que queriam criar um Tinder antes do Tinder existir, falharam, e decidiram aceitar vídeos de zoológico.

A história do YouTube não é sobre genialidade. É sobre o que acontece quando você para de defender uma hipótese que já está morta e presta atenção no que as pessoas realmente fazem quando você tira o obstáculo do caminho.

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