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Xenotransplante de rim de porco: como o órgão funcionou por 271 dias

Por Leila Alves Pereira5 min de leitura
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Xenotransplante de rim de porco: como o órgão funcionou por 271 dias

Resumo em 30 segundos

Um rim de porco transplantado funcionou por 271 dias em um paciente nos Estados Unidos, servindo de ponte até um rim humano. Entenda o que é xenotransplante, por que o porco é o doador escolhido e como a edição genética evita a rejeição.

Neste artigo

Um xenotransplante de rim de porco alcançou uma marca histórica nos Estados Unidos: o órgão funcionou por 271 dias no corpo de um paciente. O rim suíno foi usado como ponte, ou seja, uma solução temporária para manter o homem vivo e estável enquanto ele aguardava um rim humano compatível. O caso faz parte de ensaios clínicos mais amplos e é visto como um passo importante para enfrentar a falta crônica de órgãos para transplante.

O que é xenotransplante

Xenotransplante é o transplante de células, tecidos ou órgãos de uma espécie para outra. O prefixo "xeno" vem do grego e significa estrangeiro. Na medicina, o termo se refere principalmente ao uso de órgãos de animais em pessoas, uma ideia que os cientistas perseguem há décadas.

As primeiras tentativas, no século passado, usaram órgãos de primatas e terminaram rapidamente por causa da rejeição. Um dos casos mais conhecidos foi o de um bebê que recebeu um coração de babuíno em 1984 e sobreviveu poucas semanas. Esses resultados mostraram que o maior obstáculo não era a cirurgia, mas a reação do sistema imunológico.

Nos últimos anos, o cenário mudou com o avanço da edição genética. Pesquisadores passaram a modificar o DNA dos animais doadores para que seus órgãos sejam menos atacados pelo corpo humano, e os testes em pacientes vivos começaram a mostrar resultados cada vez mais longos.

Antes dos rins, o coração também entrou nessa corrida. Em 2022, um paciente nos Estados Unidos recebeu o primeiro coração de porco geneticamente modificado e viveu cerca de dois meses após a cirurgia. Cada um desses casos, mesmo quando o resultado foi curto, trouxe informações que ajudaram a ajustar as técnicas usadas depois.

Por que o porco é o animal escolhido

À primeira vista, primatas pareceriam a escolha natural por serem mais próximos dos humanos. Na prática, o porco reúne vantagens difíceis de superar. Seus órgãos têm tamanho e funcionamento parecidos com os nossos, especialmente o rim e o coração, e o animal atinge rapidamente o tamanho adulto.

Os porcos também têm ninhadas numerosas e já são criados em larga escala, o que torna possível pensar em uma produção controlada de órgãos. Eles podem ser criados em ambientes livres de patógenos, reduzindo o risco de transmitir infecções. Além disso, a medicina já tem longa experiência com tecidos suínos: válvulas cardíacas feitas a partir de tecido de porco são usadas há décadas em cirurgias, e a insulina de porco foi por muito tempo uma das principais formas de tratar o diabetes.

A edição genética que evita a rejeição

Quando um órgão estranho entra no corpo, o sistema imunológico o identifica como invasor. No caso de órgãos de porco, essa reação pode ser violenta e acontecer em minutos ou horas, um fenômeno chamado rejeição hiperaguda. Ela é provocada principalmente por açúcares presentes na superfície das células do porco, que o corpo humano reconhece como estranhos.

A edição genética ataca esse problema na origem. Os cientistas desativam os genes que produzem essas moléculas, e em alguns casos acrescentam genes humanos que ajudam o órgão a conviver melhor com o sangue e as defesas do receptor. Outra modificação comum é a inativação de vírus antigos que ficam embutidos no DNA do porco, para reduzir o risco de que passem para o paciente.

Mesmo com essas mudanças, o paciente ainda precisa de remédios imunossupressores, como em qualquer transplante. A diferença é que, com o órgão editado, a rejeição deixa de ser imediata e passa a ser algo que os médicos conseguem controlar por muito mais tempo.

Por que 271 dias é um marco

Os primeiros transplantes de rins de porco geneticamente modificados em pessoas vivas começaram em 2024, e os resultados iniciais duraram semanas ou poucos meses. Chegar a 271 dias com o órgão funcionando mostra que a tecnologia já consegue sustentar um paciente por um período longo, algo que até pouco tempo atrás parecia distante.

O uso como ponte também é significativo. Para quem tem insuficiência renal grave, a alternativa ao transplante é a diálise, um tratamento que filtra o sangue por máquina e exige sessões frequentes. Um rim de porco que funcione por meses pode dar ao paciente mais qualidade de vida enquanto a vaga para um órgão humano não chega.

Os dados desse caso também ajudam os pesquisadores a entender a compatibilidade imunológica e a durabilidade de órgãos de origem animal, informações essenciais para os próximos ensaios.

O tamanho do problema da fila de transplantes

A falta de órgãos é um dos maiores desafios da medicina. Em vários países, incluindo o Brasil, dezenas de milhares de pessoas aguardam um transplante, e o rim é o órgão mais procurado. Muitas delas passam anos na fila, dependendo da diálise, e parte não chega a receber o órgão a tempo.

A doação de órgãos humanos continua sendo fundamental, e campanhas para aumentar o número de doadores seguem essenciais. O xenotransplante surge como um complemento. Se a técnica se mostrar segura e duradoura nos ensaios clínicos, órgãos de porcos criados especificamente para esse fim poderiam reduzir a espera de muitos pacientes no futuro. Por enquanto, os procedimentos ainda são experimentais e feitos em casos selecionados.

Perguntas frequentes

O que é xenotransplante?

É o transplante de órgãos, tecidos ou células de uma espécie para outra. Na medicina atual, os estudos se concentram em órgãos de porcos geneticamente modificados para uso em humanos.

Por quanto tempo o rim de porco funcionou?

No caso registrado nos Estados Unidos, o rim de porco funcionou por 271 dias, servindo como ponte enquanto o paciente esperava um rim humano.

Por que o corpo humano rejeita órgãos de porco?

Porque o sistema imunológico reconhece moléculas na superfície das células do porco como estranhas. A edição genética remove os genes responsáveis por algumas dessas moléculas, o que reduz a rejeição.

O xenotransplante já está disponível para pacientes?

Ainda não como tratamento de rotina. Os procedimentos fazem parte de ensaios clínicos e são realizados de forma experimental em pacientes selecionados.

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