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Tesla original foi expulsa da empresa que levava seu nome

Por Kuraiq6 min de leitura
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Tesla original foi expulsa da empresa que levava seu nome

Resumo em 30 segundos

Em 1885, Nikola Tesla foi expulso da empresa que ele mesmo fundou, perdeu as patentes e passou meses cavando valas por dois dólares por dia em Nova York

Neste artigo

Em 1885, Nikola Tesla foi expulso da empresa que ele mesmo havia fundado, ficou sem dinheiro, sem patentes e sem perspectiva. Por alguns meses, sobreviveu cavando valas nas ruas de Nova York por dois dólares por dia. O mesmo homem que revolucionaria a distribuição de energia elétrica no mundo inteiro.

Como tudo começou: a Tesla Electric Company

Tesla chegou aos Estados Unidos em 1884 com pouco mais do que uma carta de recomendação para Thomas Edison. Trabalhou brevemente para Edison, mas a relação azedou rápido. As diferenças técnicas eram profundas: Edison defendia a corrente contínua; Tesla já enxergava o potencial da corrente alternada. Quando a parceria acabou, Tesla estava sozinho num país estranho, sem rede de contatos sólida e sem capital.

A virada pareceu chegar em 1885. Dois investidores americanos toparam entrar numa sociedade com ele. Nasceu a Tesla Electric Company, a primeira empresa do inventor em solo americano. Tesla via nisso a estrutura que precisava para transformar suas ideias em produtos concretos. Finalmente haveria dinheiro, laboratório e tempo para trabalhar nas invenções que carregava na cabeça.

Seis meses. Foi quanto tempo levou para os sócios destruírem tudo isso.

A traição: expulso da própria empresa

Os dois investidores decidiram encerrar a sociedade com Tesla antes que qualquer invenção relevante chegasse ao mercado. Mais do que isso: ficaram com as patentes que Tesla havia registrado durante o período. Depois de empurrar o inventor para fora, fecharam a própria empresa. Não havia plano industrial por trás da decisão, nenhuma reestruturação estratégica. Foi uma captura de ativos pura e simples.

Tesla perdeu, de uma vez, três coisas fundamentais:

  • A empresa que ele havia ajudado a construir
  • Os direitos sobre seu próprio trabalho intelectual
  • O capital que precisava para continuar pesquisando

O inventor que descreveria mais tarde a corrente alternada como algo que enxergou completo na mente antes de colocar no papel ficou reduzido a procurar emprego braçal para pagar o aluguel. Não é metáfora. É literal: Tesla passou meses cavando valas e fazendo trabalho de manutenção nas ruas de Nova York, ganhando dois dólares por dia.

Esse episódio é pouco citado quando se fala de Tesla. A narrativa popular pula direto para as invenções e para a rivalidade com Edison. Mas o período entre 1885 e 1887 é talvez o mais revelador da trajetória dele: um homem com capacidade técnica fora do comum completamente destruído por uma estrutura societária que ele não soube proteger.

A reconstrução: a Tesla Electric Light Company

Em 1887, Tesla conseguiu novos investidores. Dessa vez, as coisas foram diferentes. Ele havia aprendido, da pior forma possível, que talento sem controle jurídico sobre as próprias criações é um ativo que pertence a quem tiver os papéis assinados. A nova empresa, a Tesla Electric Light Company, foi estruturada de forma que Tesla mantivesse a titularidade das patentes.

O que veio depois é a parte que todo mundo conhece. Tesla desenvolveu e patenteou o sistema de corrente alternada, incluindo motores, geradores e transformadores. Foram mais de trezentas patentes ao longo da vida. George Westinghouse licenciou as tecnologias de corrente alternada e usou o sistema de Tesla para vencer a chamada Guerra das Correntes contra Edison, que insistia na corrente contínua.

As usinas de Niágara Falls, inauguradas em 1895, funcionaram com tecnologia de Tesla. A corrente alternada virou o padrão de transmissão de energia elétrica no mundo inteiro. Toda vez que alguém liga uma tomada em qualquer lugar do planeta, está usando um princípio que Tesla desenvolveu num laboratório alugado em Nova York, anos depois de cavar valas para sobreviver.

Por que Tesla morreu pobre mesmo assim

A segunda fase da carreira de Tesla não foi uma redenção financeira. Longe disso. Ele cedeu direitos de royalties a Westinghouse quando a empresa estava em dificuldades. Investiu fortunas em projetos que não deram retorno comercial, como a Torre Wardenclyffe, sua tentativa de criar um sistema global de transmissão de energia sem fio. Patrocinadores como J.P. Morgan cortaram financiamento quando ficou claro que o projeto não geraria receita controlável.

Tesla era um inventor de primeira grandeza e um péssimo gestor de negócios por escolha própria. Não se interessava pela parte comercial das suas criações da mesma forma que se interessava pelos problemas técnicos. Essa combinação, genialidade técnica sem habilidade ou interesse em monetizar, é uma receita conhecida para terminar sem dinheiro.

Ele morreu em janeiro de 1943, num quarto de hotel em Nova York, sozinho e praticamente sem recursos. Tinha 86 anos. O governo americano apreendeu seus papéis logo após a morte, preocupado com informações sensíveis sobre tecnologias que Tesla havia pesquisado.

O nome que sobreviveu: de 1943 a 2003

Sessenta anos depois da morte de Tesla, dois engenheiros chamados Martin Eberhard e Marc Tarpenning fundaram uma empresa de carros elétricos na Califórnia e decidiram nomear o negócio em homenagem ao inventor. Elon Musk entrou como investidor no ano seguinte e acabou assumindo o controle da empresa anos depois.

Há uma ironia considerável nessa história. O homem que foi expulso da empresa que levava seu próprio nome em 1885 tem hoje o nome associado a uma das marcas de tecnologia mais valiosas do mundo. Tesla não ganhou nada com isso, nem seus herdeiros diretos. Mas o nome sobreviveu ao esquecimento que quase o engoliu no século 20.

Durante décadas, Tesla foi uma figura de segundo plano na história da eletricidade. Edison levava o crédito popular; Westinghouse levava o crédito comercial. A reabilitação da reputação de Tesla é relativamente recente, e a Tesla Motors teve papel concreto em trazer o nome de volta para o vocabulário cotidiano.

O que esse episódio ainda tem a dizer

A história da Tesla Electric Company de 1885 não é uma parábola motivacional sobre persistência. É um caso concreto sobre estrutura societária, titularidade de propriedade intelectual e o custo de entrar numa sociedade sem entender completamente os termos.

Tesla era um inventor excepcional. Não era advogado, não era negociador, não era gestor. Assinou um contrato de sociedade sem garantias suficientes sobre o que aconteceria com as patentes em caso de dissolução. Os sócios encontraram o caminho legal para ficar com o ativo mais valioso e descartar o criador.

Isso acontecia em 1885 e continua acontecendo. Fundadores que perdem o controle das próprias empresas por não entenderem os papéis que assinaram. Criadores que cedem propriedade intelectual sem perceber o que estão abrindo mão. A tecnologia muda; a dinâmica de poder numa sociedade mal estruturada, não.

O que Tesla fez de diferente na segunda tentativa foi simples: manteve as patentes. Esse detalhe, que parece burocrático, foi o que separou os dois capítulos da carreira dele. O talento era o mesmo antes e depois de 1885. O que mudou foi quem tinha os papéis.

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