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Starbucks quase faliu antes de descobrir o café expresso

Por Kuraiq6 min de leitura
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Starbucks quase faliu antes de descobrir o café expresso

Resumo em 30 segundos

Em 1983, a Starbucks vendia só grãos de café e rejeitou a ideia do expresso. Veja como Howard Schultz saiu, provou que estava certo e voltou como dono

Neste artigo

Em 1983, a Starbucks tinha quatro lojas em Seattle e vendia grãos de café torrado. Nenhuma bebida pronta, nenhum barista, nenhum copo descartável com nome escrito errado. A empresa que hoje fatura 35 bilhões de dólares por ano quase ficou para sempre num nicho pequeno de varejo de grãos, se não fosse por uma viagem a Milão e um funcionário que não aceitou ouvir não.

O que a Starbucks original realmente vendia

Fundada em 1971 por Jerry Baldwin, Zev Siegl e Gordon Bowker, a Starbucks nasceu como uma torrefação e distribuidora de café de qualidade. A inspiração veio de Alfred Peet, fundador da Peet's Coffee, que ensinou os sócios a selecionar e torrar grãos de alto padrão. O modelo de negócio era direto: o cliente comprava o grão, levava para casa, preparava do jeito que quisesse.

Funcionava. As quatro lojas tinham clientes fiéis, a reputação era boa em Seattle. Baldwin e Bowker estavam satisfeitos com o que tinham construído. Para eles, o negócio era o grão, não a xícara.

Howard Schultz entrou na empresa em 1982, como diretor de marketing. Era jovem, ambicioso, crescido no Brooklyn, filho de família de classe trabalhadora. Ele enxergava potencial de expansão onde os fundadores viam estabilidade suficiente. A tensão entre os dois pontos de vista estava posta desde o início.

Milão e o momento que mudou tudo

Em 1983, Schultz viajou à Itália a trabalho, para uma feira de utilidades domésticas em Milão. O que chamou a atenção dele não foram os produtos da feira. Foram as cafeterias.

Nas bar italianas, o café expresso não era só uma bebida. Era um ritual. As pessoas paravam no balcão, trocavam duas palavras com o barista, conversavam com quem estava do lado, bebiam em pé e seguiam em frente. Havia uma dimensão social intensa, um senso de comunidade construído em torno de algo tão simples quanto uma xícara pequena de café forte.

Schultz voltou para Seattle com uma convicção clara: aquilo não existia nos Estados Unidos, e deveria existir. A Starbucks tinha a credibilidade com o produto, a estrutura de fornecimento, o reconhecimento de marca local. Bastava mudar o modelo.

A ideia era simples: transformar a Starbucks de uma loja de grãos num terceiro lugar, um espaço entre o trabalho e a casa onde as pessoas pudessem se reunir em torno do café.

A rejeição que gerou uma empresa bilionária

Schultz apresentou a visão para Baldwin e Bowker. A resposta foi não. Os fundadores argumentaram que vender bebidas prontas desviaria a empresa do foco original, transformaria a Starbucks numa lanchonete, diluiria a identidade construída ao longo de mais de uma década.

Schultz insistiu por meses. Levou projeções, estudos de mercado, argumentos sobre comportamento do consumidor. A resposta continuou sendo não. Para os donos, o risco não valia a mudança de identidade.

Em 1985, Schultz tomou uma decisão difícil: pediu demissão. Levantou 1,7 milhão de dólares com investidores e abriu sua própria cafeteria em Seattle, a Il Giornale, batizada em referência a um jornal italiano. O cardápio era exatamente o que ele havia proposto para a Starbucks: expresso, cappuccino, bebidas quentes preparadas na hora, ambiente pensado para criar conexão.

O sucesso foi imediato. As filas apareceram. A fórmula funcionava no contexto americano. Schultz estava certo, e agora tinha dados reais para provar.

A compra da empresa que o rejeitou

Em 1987, Baldwin e Bowker decidiram vender a Starbucks. Queriam focar em outros projetos, incluindo a Peet's Coffee, que Baldwin havia adquirido. Schultz, com a Il Giornale operando e novos investidores interessados, comprou a Starbucks por 3,8 milhões de dólares.

A jogada seguinte foi óbvia: ele manteve o nome Starbucks, que já tinha reconhecimento em Seattle, e implementou exatamente o conceito que havia sido rejeitado pelos fundadores originais. As lojas pararam de vender apenas grãos e passaram a preparar bebidas. O modelo italiano adaptado ao gosto e ao ritmo americano virou o padrão.

A expansão aconteceu rapidamente. Schultz abriu lojas em outras cidades, depois em outros estados, depois em outros países. Em 1992, a Starbucks abriu capital na bolsa. Em 1996, chegou ao Japão, sua primeira operação fora dos Estados Unidos.

O que essa história ensina sobre inovação dentro de empresas

A trajetória de Schultz é frequentemente contada como uma história de perseverança pessoal, e é. Mas há outra leitura igualmente importante: o que acontece quando organizações estabelecidas não conseguem reconhecer oportunidades apresentadas de dentro.

Baldwin e Bowker não eram pessoas despreparadas. Tinham construído uma empresa sólida, com produto de qualidade reconhecida. O problema não era incompetência. Era um comprometimento rígido com o modelo original que tornava difícil avaliar a proposta de Schultz com objetividade.

Esse padrão aparece em outros casos conhecidos:

  • A Kodak desenvolveu internamente a tecnologia de câmera digital nos anos 1970, mas hesitou em comercializá-la para não canibalizar o negócio de filme fotográfico.
  • A Blockbuster teve a chance de comprar a Netflix em 2000 por 50 milhões de dólares e recusou, por considerar o modelo de assinatura por correio pouco relevante.
  • A Nokia dominou o mercado de celulares por anos, mas foi lenta demais para entender que o produto havia se transformado em computador portátil.

Em todos esses casos, a resistência não veio de ignorância, veio de sucesso anterior. Empresas que funcionam bem têm incentivo para proteger o que já funciona, não para arriscar em algo novo.

O custo de dizer não para ideias internas

Quando Schultz saiu da Starbucks, levou consigo a visão, a energia e os contatos com investidores que ele havia cultivado enquanto trabalhava lá. A empresa perdeu o ativo mais importante que tinha no momento: o funcionário que enxergou o próximo passo.

Organizações que bloqueiam sistematicamente propostas internas sem avaliação estruturada não apenas perdem inovação. Perdem as pessoas que a carregam. E essas pessoas, como Schultz mostrou, às vezes voltam como concorrentes ou, no caso mais irônico, como compradores.

Starbucks hoje: 35.000 lojas e um legado construído sobre uma rejeição

A Starbucks opera hoje em mais de 80 países, com mais de 35.000 unidades. O faturamento anual supera 35 bilhões de dólares. A marca virou referência global de café, de experiência de consumo e, por bem ou por mal, de padronização cultural.

Schultz liderou a empresa em dois períodos diferentes como CEO e foi a figura central da sua transformação. O modelo que ele trouxe da Itália em 1983 ainda é o núcleo do que a Starbucks vende: não apenas café, mas um espaço, um ritual, uma pausa no dia.

A ironia completa está nos números. A empresa que recusou a ideia do café expresso por medo de perder identidade construiu toda a sua identidade global exatamente sobre essa ideia. Baldwin e Bowker venderam por 3,8 milhões o que valeria bilhões poucos anos depois.

Rejeição não é necessariamente o fim de uma ideia. Às vezes é só a confirmação de que ela precisa de outro ambiente para crescer.

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