Pular para o conteudo
bit.fatos
negocios

A Red Bull não inventou o energético — comprou uma receita de caminhoneiro tailandês por uma quantia simbólica

Por Kuraiq6 min de leitura
Compartilhar:
A Red Bull não inventou o energético — comprou uma receita de caminhoneiro tailandês por uma quantia simbólica

Resumo em 30 segundos

Dietrich Mateschitz não inventou a Red Bull. Ele reconheceu o valor de uma bebida tailandesa de caminhoneiros que o mundo ocidental ignorava completamente

Neste artigo

Em 1982, um executivo austríaco de meia-idade chegou a Bangkok com o corpo destruído depois de uma viagem longa demais. Jet lag, reuniões, fuso horário virado. Um colega tailandês colocou na mão dele uma latinha com um nome que ele mal conseguia pronunciar: Krating Daeng. Dietrich Mateschitz tomou um gole. O cansaço foi embora. E naquele momento, sem saber, ele tinha encontrado um negócio que um dia valeria mais de US$ 20 bilhões.

A bebida que ninguém levava a sério

O Krating Daeng não era produto de laboratório de inovação nem de startup californiana. Era uma bebida criada nos anos 1970 por Chaleo Yoovidhya, um farmacêutico tailandês que queria algo prático para dar energia a trabalhadores braçais: caminhoneiros de longas rotas, operários de turno noturno, qualquer pessoa que precisasse aguentar mais algumas horas acordada. A fórmula tinha cafeína, taurina, vitaminas do complexo B e uma quantidade generosa de açúcar. Funcionava. O público comprava. Mas estava longe de ser glamouroso.

Mateschitz era diretor de marketing da Blendax, empresa alemã de cosméticos. Viajava muito, conhecia mercados diferentes, sabia distinguir produto bom de produto comum. E o Krating Daeng ficou na cabeça dele de um jeito que poucos produtos ficam. Voltou para a Áustria obcecado com aquela latinha tailandesa.

Dois anos de insistência e uma sociedade incomum

O que aconteceu entre 1982 e 1984 diz muito sobre como negócios reais funcionam: Mateschitz passou dois anos tentando convencer Chaleo Yoovidhya a fechar uma parceria para levar o produto ao mercado ocidental. Não foi rápido, não foi fácil. Chaleo tinha o produto, tinha o mercado tailandês, e não havia razão óbvia para arriscar numa aventura europeia com um executivo de cosméticos.

Em 1984, o acordo saiu. Cada um colocou US$ 500 mil. A divisão ficou assim:

  • Mateschitz: 49% da empresa
  • Chaleo Yoovidhya: 49%
  • Chalerm, filho de Chaleo: 2%

Com o capital combinado, os dois passaram três anos adaptando a fórmula para o paladar europeu. A versão original era densa e muito doce para quem não cresceu tomando aquele tipo de bebida. Mateschitz adicionou carbonatação, reduziu a densidade e criou a lata fina e alta que hoje é reconhecível em qualquer bar do planeta. A Red Bull foi lançada na Áustria em 1987.

O pessimismo do fundador e o fracasso que não veio

Antes do lançamento, as pesquisas de mercado eram um desastre. Consumidores em grupos focais rejeitavam o sabor, achavam a lata estranha, não entendiam o conceito de uma bebida energética. Nenhum grande supermercado topou colocar o produto nas prateleiras. O próprio Mateschitz, em declaração que ficou famosa, disse que havia criado o maior fracasso de marketing de todos os tempos.

Isso não é romantismo de retrospectiva. Ele disse isso com convicção, baseado nos dados que tinha. E mesmo assim seguiu em frente.

O que ele fez a seguir foi a decisão que separou a Red Bull de centenas de bebidas que morreram no anonimato: se os supermercados não queriam, ele foi para onde o público certo estava. Patrocinou festas, eventos de esportes radicais e distribuiu latas de graça para as pessoas certas nos lugares certos, academias, boates, pistas de esqui, circuitos de Fórmula 1 amadora. Construiu uma identidade antes de construir distribuição.

A Red Bull não entrou nos supermercados porque os consumidores pediam. Entrou porque já havia uma demanda real criada fora deles.

O que Mateschitz realmente fez (e o que ele não fez)

Há uma narrativa comum sobre a Red Bull que coloca Mateschitz como o gênio que inventou a bebida energética. Não é isso. Ele não inventou a fórmula, não foi o primeiro a perceber que cafeína e taurina funcionam juntas, e não estava fazendo pesquisa de mercado sofisticada quando tomou aquele primeiro gole em Bangkok.

O que ele fez foi diferente, e em alguns aspectos mais difícil do que inventar:

  1. Reconheceu valor em algo que o mercado mainstream ignorava. O Krating Daeng existia há quase uma década quando Mateschitz o conheceu. Estava ali, funcionando, vendendo bem para um público específico. Ninguém do mundo ocidental tinha olhado para aquilo como oportunidade.
  2. Negociou uma parceria com o criador original em vez de tentar replicar. Ele poderia ter tentado desenvolver um produto similar sozinho. Escolheu o caminho mais lento e mais difícil de convencer Chaleo, o que garantiu acesso à fórmula real e a uma sociedade sólida.
  3. Adaptou sem destruir. A versão ocidental da bebida é diferente do Krating Daeng original, mas não é irreconhecível. Mateschitz entendeu o que poderia mexer e o que deveria preservar.
  4. Construiu um canal de distribuição alternativo quando o convencional falhou. A decisão de ir para eventos e baladas em vez de brigar por espaço em supermercado foi pragmática, não heroica. Era o que restava.

O que aconteceu com os dois fundadores

Chaleo Yoovidhya morreu em março de 2012, aos 89 anos. Era um dos homens mais ricos da Ásia. O Krating Daeng original continua sendo vendido na Tailândia e em outros países asiáticos, muitas vezes mais barato que a Red Bull e em embalagem sem gás. São produtos diferentes voltados para públicos diferentes, comercializados sob o mesmo guarda-chuva societário.

Mateschitz morreu em outubro de 2022, aos 78 anos, com fortuna estimada em torno de US$ 27 bilhões. Ele transformou a Red Bull em muito mais do que uma bebida: criou uma emissora de TV, uma gravadora, uma equipe de Fórmula 1 que ganhou múltiplos campeonatos mundiais, e se tornou referência global em marketing de conteúdo antes de esse termo existir como conceito de negócios.

Em 2023, a Red Bull vendeu mais de 12 bilhões de latas em mais de 175 países. O número é impressionante por si só, mas o que ele representa é mais interessante: uma bebida que nenhum supermercado queria, desenvolvida a partir de uma receita de caminhoneiro tailandês, rejeitada por pesquisas de mercado, mantida viva pela teimosia de dois homens que acreditavam no produto por razões diferentes.

O que essa história diz sobre inovação de verdade

A Red Bull é frequentemente usada como case de marketing, e com razão. Mas antes de ser um case de marketing, ela é um case de percepção. Mateschitz não tinha dados favoráveis. Não tinha distribuição. Não tinha um mercado comprovado no Ocidente. Tinha a memória física de um produto que funcionou no próprio corpo dele, e a convicção de que outros sentiriam o mesmo.

Não é uma lição sobre seguir o instinto e ignorar dados. É uma lição sobre saber quando os dados disponíveis não estão medindo a coisa certa. Pesquisa de mercado mede o que pessoas conhecem e conseguem imaginar. Não mede o que elas vão querer quando experimentarem algo novo num contexto diferente.

A bebida de caminhoneiro que virou império global não precisa de moralização. O fato já fala por si: às vezes o produto certo está num lugar que ninguém está olhando, criado por alguém que não tem acesso ao mercado que você conhece. A questão é se você tem olhos para ver isso antes de todo mundo.

Compartilhar:

Leia tambem

Usamos cookies próprios para medir o uso do site (métricas anônimas, sem vender dados). Você pode aceitar ou recusar.