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O Twitter foi criado num hackathon de 2 semanas — e quase foi descartado

Por Kuraiq6 min de leitura
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O Twitter foi criado num hackathon de 2 semanas — e quase foi descartado

Resumo em 30 segundos

O Twitter nasceu num pitch de 15 minutos durante uma crise e foi vendido junto com uma empresa falida por 5 milhões de dólares antes de valer 44 bilhões

Neste artigo

Em 21 de março de 2006, um programador de 29 anos abriu um serviço ainda sem nome oficial e digitou sete palavras: just setting up my twttr. Sem fanfarra, sem cobertura da imprensa, sem ninguém achando que aquilo importava. O que veio depois foi uma das viradas mais improváveis da história da tecnologia.

Uma empresa afundando, um dia de brainstorming e 15 minutos de pitch

A Odeo era uma startup de podcasting fundada por Ev Williams em 2005, em São Francisco. O timing parecia razoável: podcasts estavam crescendo, havia apetite do mercado, havia investidores interessados. Aí a Apple anunciou suporte nativo a podcasts no iTunes. Do dia para a noite, a Odeo perdeu sua razão de existir. Competir com a distribuição da Apple sem ter o ecossistema da Apple era uma batalha que não valia travar.

Williams convocou um dia de brainstorming coletivo. O tipo de reunião que toda empresa faz quando sente o chão sumindo: todo mundo na sala, ideias na mesa, vamos ver o que aparece. Vários funcionários apresentaram conceitos. Quando chegou a vez de Jack Dorsey, ele pediu 15 minutos.

A ideia que Dorsey apresentou era desconcertantemente simples. Um serviço de SMS em grupo: você enviava uma mensagem de texto para um número central e todos os seus contatos naquela rede recebiam a atualização. Nada mais do que isso. Sem algoritmo, sem feed personalizado, sem anúncios. Só status em tempo real compartilhado com quem você escolhesse.

A sala não reagiu com entusiasmo. Faz sentido: em 2006, a ideia de transmitir para um grupo o que você estava fazendo naquele momento parecia um problema pequeno demais para virar empresa. Mas Ev Williams topou. E esse sim foi o momento decisivo.

Duas semanas para construir algo que durou décadas

Um time pequeno pegou o conceito e construiu um protótipo funcional em duas semanas. Não um mockup bonito para apresentação, não um documento de requisitos: um produto que funcionava, que recebia mensagens e as distribuía.

O nome original era twttr, sem as vogais. Abreviar nomes era uma tendência do momento, influenciada por plataformas como Flickr. A escolha não era aleatória: um nome de cinco letras cabia melhor nas limitações técnicas do SMS e na estética minimalista que o produto queria projetar.

Internamente, o twttr rodou durante meses como ferramenta interna da Odeo antes de ser apresentado ao mundo. Os funcionários usavam para se comunicar entre si no escritório. Era uma espécie de intranet social baseada em SMS, e já funcionava bem o suficiente para provar que a ideia tinha pernas.

A venda que ninguém entendeu na época e todo mundo lamenta hoje

A Odeo foi vendida em 2006 por aproximadamente 5 milhões de dólares. Os investidores originais aceitaram o valor, fecharam o negócio e seguiram em frente. Era uma empresa de podcasting que havia fracassado. O que havia para lamentar?

O problema é o que aconteceu antes da venda ser concluída. Ev Williams e outros fundadores negociaram a recompra dos ativos da Odeo por um valor simbólico, incluindo o twttr. Os investidores concordaram. Por que não concordariam? Era apenas um experimento interno de SMS de uma startup que estava sendo liquidada.

Esse detalhe é onde a história fica difícil de processar. Os fundadores viram algo que os investidores não viram: que aquele experimento de duas semanas tinha mais potencial do que toda a empresa ao redor dele. E eles pagaram quase nada para ficar com ele.

O que os números dizem sobre esse erro de avaliação

  • A Odeo foi vendida por cerca de 5 milhões de dólares em 2006
  • O Twitter abriu capital na bolsa de valores em 2013, com avaliação de 24 bilhões de dólares
  • Em 2022, Elon Musk adquiriu a plataforma por 44 bilhões de dólares
  • Os investidores originais venderam por 5 milhões um conjunto de ativos que incluía algo avaliado, anos depois, em mais de 8.000 vezes esse valor

Não há estatística que torne esse número mais fácil de absorver. 8.000 vezes. É o tipo de erro de avaliação que entra para os livros de história do venture capital como exemplo permanente de por que julgamentos apressados sobre ideias jovens custam caro.

O SXSW e o momento em que o Twitter deixou de ser experimento

O Twitter foi lançado oficialmente em julho de 2006, mas o turning point real veio em março de 2007, na conferência South by Southwest Interactive, em Austin, Texas. A equipe instalou telas de LCD nos corredores do evento exibindo o feed do Twitter em tempo real. Os participantes da conferência, todos ligados de alguma forma ao mundo de tecnologia e mídia, começaram a tuitar sobre o próprio evento.

O uso da plataforma triplicou durante o SXSW naquele ano. Não porque a empresa fez uma campanha de marketing sofisticada, mas porque o produto se encaixou perfeitamente num contexto: muita gente reunida num mesmo lugar, querendo saber o que estava acontecendo ao mesmo tempo, com celulares na mão. O Twitter resolveu esse problema de forma elegante.

Esse crescimento orgânico, gerado pelo uso real em contexto real, é o tipo de validação que nenhum pitch deck consegue fabricar. E foi esse crescimento que convenceu o mercado de que o Twitter não era um experimento de SMS. Era uma nova categoria.

O que essa história diz sobre como julgamos ideias novas

Há um padrão recorrente na história de produtos que se tornaram grandes: no momento do nascimento, eles parecem pequenos demais ou específicos demais para justificar atenção. O Twitter era um serviço de SMS para dizer o que você estava fazendo. O Instagram era um app de filtros para fotos. O YouTube era um site para compartilhar vídeos caseiros.

O problema com avaliações de ideias novas é que elas tendem a ser feitas com base no que o produto é no momento da avaliação, não no que ele pode se tornar com adoção, iteração e contexto favorável. Os investidores da Odeo avaliaram o twttr como um experimento interno de uma empresa falida. Estavam tecnicamente certos: era exatamente isso. O que eles não calcularam foi o que aquele experimento poderia ser com as condições certas.

Ev Williams calculou. Não porque tinha uma bola de cristal, mas porque conhecia o produto por dentro, havia visto como a equipe interna o usava e entendia que comunicação em tempo real era um problema não resolvido de forma satisfatória para a maioria das pessoas. Ele apostou nisso quando quase ninguém apostaria.

Três lições que ficam da origem do Twitter

  1. Contexto de crise pode ser produtivo. O brainstorming que gerou o Twitter aconteceu porque a Odeo estava afundando. O desconforto forçou o time a pensar em coisas que não tentaria em condições normais.
  2. Velocidade de execução é argumento. Um protótipo funcional em duas semanas é mais convincente do que qualquer apresentação. A equipe não debateu o conceito por meses: construiu e mostrou.
  3. Quem está mais perto do produto tende a enxergar o potencial antes. Os fundadores recompraram os ativos porque acreditavam mais do que ninguém. Esse tipo de convicção, quando baseada em uso real e não em otimismo vazio, costuma ser informada por algo que outros ainda não viram.

A história do Twitter não é uma lição de que toda ideia simples vai valer bilhões. A maioria não vai. É uma lição de que subestimar um produto jovem baseado no que ele parece ser no dia zero é um erro sistemático, e que as pessoas mais próximas de um produto em desenvolvimento costumam ter informação que o mercado ainda não tem. Os investidores da Odeo não eram burros: tomaram uma decisão racional com as informações que tinham. O problema é que as informações mais relevantes estavam com quem usava o produto todo dia, não com quem olhava para os números de uma startup falida.

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