A Nintendo existiu por 87 anos antes de lançar seu primeiro videogame

Resumo em 30 segundos
Fundada em 1889 para fabricar cartas de baralho, a Nintendo tentou táxis, hotéis e alimentos antes de descobrir os videogames 87 anos depois
Neste artigo
- Cartas de baralho como fundação de um império
- Décadas de tentativas e fracassos antes dos videogames
- O herdeiro que apostou em eletrônica
- Donkey Kong e o momento em que tudo mudou
- O que a história da Nintendo ensina sobre negócios de longo prazo
- O negócio central importa mais do que parece
- Fracasso repetido não é sinal de incompetência
- O produto certo precisa do momento certo
- Pessoas específicas fazem diferença
- A Nintendo hoje
Em 1889, um artesão de Kyoto abriu uma loja pequena e começou a fabricar cartas de papel pintadas à mão. Oitenta e sete anos depois, essa mesma empresa lançaria o produto que mudaria o entretenimento global. O nome da loja: Nintendo.
Cartas de baralho como fundação de um império
Fusajiro Yamauchi fundou a Nintendo Koppai em setembro de 1889 para produzir hanafuda, cartas tradicionais japonesas decoradas com flores e plantas sazonais. O produto era artesanal, fabricado com casca de árvore, e tinha mercado garantido: o hanafuda era usado em jogos populares no Japão desde o século XVIII.
O negócio funcionou. Tão bem que a família Yamauchi passou décadas administrando a empresa com foco quase exclusivo nesse produto. As cartas eram boas o suficiente para pagar as contas, financiar expansões e sustentar a marca. Esse ponto importa mais do que parece: a Nintendo nunca precisou se reinventar por desespero financeiro imediato. Reinventou-se por ambição, e voltou às cartas cada vez que a ambição não deu certo.
Décadas de tentativas e fracassos antes dos videogames
Se você olha para a trajetória da Nintendo entre os anos 1950 e 1970, o que vê é uma lista de apostas que não funcionaram. A empresa tentou diversificar várias vezes, em setores completamente diferentes do seu núcleo original.
- Rede de táxis em Kyoto: a Nintendo entrou no setor de transporte urbano e encerrou a operação depois de acumular prejuízo.
- Alimentos instantâneos: tentou aproveitar o boom dos produtos de conveniência no Japão do pós-guerra. Não ganhou escala.
- TV a cabo: investiu na distribuição de conteúdo por cabo antes que o mercado japonês estivesse maduro para isso. Também não deu.
- Hotéis de luxo: chegou a investir em hotelaria de alto padrão. O resultado foi o mesmo: encerramento.
Cada uma dessas tentativas terminou da mesma forma: a empresa voltava às cartas. O hanafuda e os baralhos ocidentais que a Nintendo passou a fabricar mais tarde eram o colchão que amortecia cada queda. Esse padrão diz muito sobre como empresas longevas sobrevivem: não porque nunca erram, mas porque têm um negócio central sólido o suficiente para financiar os erros.
O herdeiro que apostou em eletrônica
Hiroshi Yamauchi assumiu a presidência da Nintendo em 1949, com apenas 21 anos, depois da morte do avô. Era neto de Sekiryo Yamauchi, que havia expandido o negócio de cartas, e não tinha experiência formal em gestão. O que tinha era disposição para experimentar.
Nos anos 1960 e 1970, Yamauchi percebeu que o mercado de cartas físicas tinha teto. O Japão estava se industrializando rapidamente, o entretenimento eletrônico começava a aparecer, e a Nintendo precisava de um próximo capítulo. A virada veio de uma parceria com a Mitsubishi: em 1977, a Nintendo lançou o Color TV-Game, um console doméstico simples que rodava variações de jogos eletrônicos básicos diretamente na televisão.
O produto não era sofisticado. Não tinha cartuchos intercambiáveis, não tinha história, não tinha personagens. Mas vendeu. E provou que havia demanda real para entretenimento eletrônico em casa, no Japão. Para uma empresa que fabricava papel pintado à mão desde o século XIX, era um salto considerável.
Donkey Kong e o momento em que tudo mudou
O Color TV-Game abriu a porta. O que entrou por ela, em 1981, foi Shigeru Miyamoto.
Miyamoto era um designer jovem, sem experiência formal em desenvolvimento de jogos, contratado pela Nintendo alguns anos antes. Quando a empresa precisava de um jogo de arcade para competir no mercado norte-americano, ele criou algo que ninguém havia pedido: um gorila gigante, barris rolando por rampas, e um carpinteiro tentando chegar ao topo da tela para resgatar uma mocinha.
O jogo se chamava Donkey Kong. O carpinteiro, que mais tarde ganharia o nome Mario, se tornaria o personagem de videogame mais reconhecível da história.
Os números daquele ano falam por si: o Donkey Kong gerou aproximadamente US$ 280 milhões em receita somente nos Estados Unidos em 1981, segundo dados históricos amplamente documentados sobre a indústria de arcade da época. Para uma empresa que fabricava cartas de papel em Kyoto, esse número era de outro planeta.
Em 1983, a Nintendo lançou o Famicom no Japão (mais tarde vendido no Ocidente como Nintendo Entertainment System, o NES). O console salvou a indústria de videogames norte-americana depois do colapso de 1983, reestabeleceu a confiança do consumidor e posicionou a Nintendo como referência global no setor.
O que a história da Nintendo ensina sobre negócios de longo prazo
É tentador transformar a trajetória da Nintendo em uma fábula motivacional simples: "persista e você vai chegar lá". Mas a história real é mais interessante e mais honesta do que isso.
O negócio central importa mais do que parece
As cartas hanafuda não eram apenas um produto. Eram a base financeira que permitiu à Nintendo sobreviver a décadas de experimentos fracassados. Sem essa receita estável, a empresa provavelmente teria encerrado as atividades antes de chegar aos videogames. Qualquer empresa que queira experimentar precisa de um núcleo que sustente os erros.
Fracasso repetido não é sinal de incompetência
A Nintendo falhou em táxi, em alimentos, em TV a cabo, em hotelaria. Essas falhas não indicavam que a empresa era mal administrada: indicavam que ela estava tentando encontrar o próximo passo sem abrir mão do que funcionava. Há uma diferença relevante entre fracassar imprudentemente e fracassar de forma controlada, com um colchão de segurança.
O produto certo precisa do momento certo
A Nintendo não inventou os videogames. Atari, Magnavox e outros já existiam. O que a Nintendo fez foi entrar no momento em que a tecnologia ficou acessível o suficiente para o mercado doméstico e com produtos que combinavam qualidade técnica com design pensado para o usuário. Miyamoto não era só programador: era alguém que pensava em como as pessoas sentiam ao jogar.
Pessoas específicas fazem diferença
Hiroshi Yamauchi tomou a decisão de entrar em eletrônica. Shigeru Miyamoto criou os personagens e a linguagem visual que definiram a Nintendo por décadas. Sem essas duas pessoas, em momentos específicos, a empresa poderia ter continuado fabricando cartas por mais algumas décadas e desaparecido silenciosamente.
A Nintendo hoje
A empresa vale mais de US$ 50 bilhões e o Nintendo Switch ultrapassou a marca de 140 milhões de unidades vendidas desde seu lançamento em 2017, tornando-se um dos consoles mais vendidos da história. Mario, Zelda e Pokémon são franquias com alcance cultural que vai muito além dos videogames, aparecendo em filmes, parques temáticos e produtos licenciados no mundo inteiro.
Tudo isso tem raiz em uma loja de Kyoto onde um artesão pintava flores em pedaços de papel.
A lição não é que toda empresa velha vai virar gigante de tecnologia. A lição é mais simples: às vezes o negócio que você tem hoje é apenas o que mantém você vivo enquanto você descobre o negócio que vai definir sua história. O problema é que você raramente sabe qual dos dois é qual, enquanto está no meio.





