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O Twitter foi criado em um único dia como projeto paralelo de uma empresa falindo

Por Kuraiq4 min de leitura
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O Twitter foi criado em um único dia como projeto paralelo de uma empresa falindo

Resumo em 30 segundos

O Twitter nasceu em um único dia, como plano B de uma startup falindo. A empresa que o criou vendeu tudo por US$ 5 milhões antes de ver a plataforma valer US$ 44 bilhões

Neste artigo

Em 21 de março de 2006, um desenvolvedor chamado Jack Dorsey construiu um protótipo inteiro em menos de 24 horas e enviou a primeira mensagem da plataforma às 12h50: "just setting up my twttr". Essa plataforma seria comprada, dezesseis anos depois, por US$ 44 bilhões. A empresa que a criou não viu nenhum desse dinheiro.

Uma startup agonizando e uma janela de duas semanas

A Odeo era uma startup de podcasting sediada em São Francisco. O modelo de negócio fazia sentido até o momento em que a Apple decidiu incluir suporte nativo a podcasts direto no iTunes, em 2005. Do ponto de vista competitivo, foi uma execução quase perfeita de como uma big tech pode liquidar um mercado inteiro sem nem perceber: um simples recurso novo num produto já instalado em milhões de dispositivos foi suficiente para tornar o produto da Odeo obsoleto.

Os investidores queriam respostas. O CEO Ev Williams não tinha nenhuma boa. A saída que encontrou foi incomum: deu duas semanas para os funcionários proporem qualquer coisa nova. Um hackathon de sobrevivência, como ficou conhecido informalmente. Sem direção clara, sem garantia de resultado. Apenas tempo e permissão para pensar diferente.

A ideia mais simples da sala

Numa das sessões desse período, Jack Dorsey apresentou um conceito que cabia em uma frase: um serviço onde você mandava uma mensagem curta dizendo o que estava fazendo naquele momento. Público, curto, imediato. Como um SMS, mas visível para todo mundo.

A ideia não era tecnicamente complexa. Não exigia infraestrutura nova nem algoritmos sofisticados. Era uma combinação de formatos já existentes, mas com uma lógica diferente de uso. A equipe gostou o suficiente para tocar o protótipo no mesmo dia.

O nome original, twttr, sem vogais, não foi uma escolha estética. Domínios de cinco letras custavam menos na época. Uma decisão financeira trivial acabou virando uma das marcas mais reconhecidas do século.

O erro de avaliação que custou US$ 44 bilhões

O Twitter começou a ganhar tração, mas a Odeo não conseguia enxergar o que tinha nas mãos. A empresa estava esgotada financeiramente e emocionalmente. A decisão que tomou em seguida é, provavelmente, um dos casos mais estudados em cursos de empreendedorismo no mundo inteiro: a Odeo ofereceu a plataforma de volta aos próprios fundadores, por algo em torno de US$ 5 milhões, simplesmente porque queria encerrar o capítulo e distribuir o dinheiro restante aos investidores.

Ev Williams, Jack Dorsey e os outros fundadores compraram. A Odeo fechou. Os investidores originais que bancaram toda aquela estrutura receberam seus US$ 5 milhões divididos e foram embora.

Em outubro de 2022, Elon Musk adquiriu o Twitter por US$ 44 bilhões. A Odeo não existia mais para reclamar nada. Os investidores que poderiam ter ficado com uma fatia desse valor já tinham saído por uma fração mínima anos antes.

O que esse caso revela sobre como ideias surgem

A história do Twitter contradiz algumas narrativas populares sobre inovação. Não houve um gênio isolado trabalhando numa garagem por anos. Não houve pesquisa de mercado extensa nem um plano de negócios bem estruturado. O que houve foi pressão, tempo limitado e liberdade para errar.

Alguns pontos que vale observar nesse caso:

  • A restrição foi produtiva. Duas semanas forçaram o time a propor ideias executáveis, não ideais. O Twitter não nasceu elaborado; nasceu funcional.
  • A simplicidade foi a proposta. Dorsey não apresentou um sistema complexo. Apresentou um comportamento humano básico, a vontade de dizer o que está fazendo agora, embrulhado num formato digital.
  • O contexto de crise virou combustível. Sem a ameaça do iTunes, a Odeo provavelmente continuaria iterando sobre podcasts. A destruição do plano original foi o que abriu espaço para o experimento.
  • A avaliação de valor foi equivocada por quem estava dentro. Os fundadores da Odeo não conseguiram enxergar o que tinham. Quem comprou por US$ 5 milhões enxergou, ou simplesmente apostou no escuro.

O impacto que ninguém previu em março de 2006

O Twitter se tornou algo que nenhum dos envolvidos naquele hackathon estava tentando construir: uma infraestrutura de comunicação pública em tempo real que moldou coberturas jornalísticas, campanhas políticas e movimentos sociais ao redor do mundo. Protestos foram organizados por lá. Presidentes usaram a plataforma como canal oficial de comunicação. O conceito de trending topics entrou no vocabulário cotidiano.

Tudo isso saiu de um protótipo construído em um dia, por um time que estava tentando salvar uma empresa de podcasting.

A Odeo não foi incompetente. Ela simplesmente não conseguiu avaliar o que tinha criado no caos de sua própria crise. Esse talvez seja o detalhe mais humano, e mais caro, de toda a história.

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