A Pixar quase foi destruída pela Disney antes de lançar seu primeiro filme

Resumo em 30 segundos
A Disney travou Toy Story em 1993, chamou o roteiro de sombrio e demitiu parte da equipe. Veja como a Pixar sobreviveu e foi vendida por US$ 7,4 bilhões
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Em 1993, a Disney assistiu ao rascunho de Toy Story e travou a produção na mesma hora. O veredicto interno: o filme era sombrio demais e os personagens, antipáticos. Para uma pequena empresa que já não conseguia pagar as contas, aquela decisão poderia ter sido o fim.
De divisão da Lucasfilm a aposta de Steve Jobs
A história da Pixar começa antes de qualquer animação. Em 1986, Steve Jobs havia sido expulso da Apple de forma pública e humilhante. Precisava de um próximo passo. Encontrou uma divisão de computadores dentro da Lucasfilm, empresa de George Lucas, que desenvolvia software de imagem digital. Ninguém no mercado levava o negócio a sério. Jobs pagou US$ 5 milhões e a divisão se tornou uma empresa independente chamada Pixar.
Durante anos, a Pixar sobreviveu fazendo comerciais e vendendo hardware especializado. A animação longa ainda era um objetivo distante. Jobs injetou capital diversas vezes para manter as luzes acesas. A empresa nunca foi lucrativa nesses primeiros anos, e os investidores externos saíram antes de ver qualquer resultado.
O contrato que quase esvaziou a Pixar
Em 1991, a Pixar fechou um acordo com a Disney para produzir três longas-metragens de animação computadorizada. No papel, parecia uma vitória expressiva para uma empresa pequena. Na prática, o contrato escondia uma armadilha.
Os termos eram desfavoráveis a ponto de serem quase predatórios:
- A Disney mantinha todos os direitos sobre os personagens criados pela Pixar.
- A Disney controlava os direitos das histórias desenvolvidas em conjunto.
- Qualquer sequência gerada a partir dos filmes pertencia à Disney.
- A Pixar entrava com tecnologia e talento criativo, mas ficava sem os ativos que havia criado.
O raciocínio por trás disso era claro: a Disney via a Pixar como um fornecedor de tecnologia, não como uma parceira criativa. Se os filmes funcionassem, a Disney ficaria com os personagens, as franquias e os royalties de longo prazo. À Pixar restariam as taxas de produção e pouca coisa mais.
O momento em que tudo quase acabou
Quando a Disney paralisou a produção de Toy Story em 1993, a situação da Pixar era crítica. Parte da equipe foi demitida. A empresa não tinha reserva para aguentar um longo período parada. Jobs, que já havia colocado mais de US$ 50 milhões do próprio bolso ao longo dos anos anteriores, precisava decidir se continuava bancando uma empresa sem produto, sem receita e com o único projeto em desenvolvimento travado pelo parceiro que detinha os direitos.
John Lasseter e a equipe criativa não esperaram. Voltaram para a mesa de trabalho e reescreveram o roteiro em tempo recorde, amenizando os elementos que a Disney havia rejeitado. Convenceram os executivos a retomar a produção. Não foi uma negociação fácil, e o prazo que sobrou para finalizar o filme era apertado.
A empresa que ia criar os personagens não ficaria com os personagens. Mesmo assim, a equipe voltou e reescreveu o roteiro porque a alternativa era fechar as portas.
Novembro de 1995: o lançamento que mudou os dois lados da história
Toy Story estreou em novembro de 1995 e se tornou o primeiro longa-metragem feito inteiramente com animação computadorizada na história do cinema. O resultado nas bilheterias foi inequívoco: US$ 373 milhões arrecadados mundialmente, tornando-o o filme de maior bilheteria daquele ano nos Estados Unidos.
Na semana do lançamento, a Pixar abriu capital na bolsa. As ações dispararam no primeiro dia de negociação. Jobs, que havia apostado sua fortuna pessoal numa empresa que o mercado descartou por quase uma década, tornou-se bilionário em questão de horas.
O que veio nos anos seguintes confirmou que o sucesso de Toy Story não era sorte de estreia:
- Vida de Inseto (1998): outro sucesso de bilheteria e crítica.
- Toy Story 2 (1999): superou as expectativas e foi um dos filmes mais bem avaliados do ano.
- Monstros S.A. (2001): consolidou a Pixar como a principal força criativa da animação ocidental.
- Procurando Nemo (2003): tornou-se o filme de animação mais lucrativo da história até aquele momento.
- Os Incríveis (2004): ganhou o Oscar de melhor animação.
Cada lançamento reforçava o mesmo problema para a Disney: a empresa que ela havia tentado manter em posição subordinada estava produzindo os melhores filmes animados do mundo, enquanto os próprios estúdios da Disney atravessavam um período criativo fraco.
A ironia da aquisição de 2006
Em 2006, a Disney anunciou a compra da Pixar por US$ 7,4 bilhões em ações. Jobs, que tinha investido cerca de US$ 50 milhões ao longo dos anos para manter a empresa funcionando, tornou-se o maior acionista individual da Disney após a transação. A empresa que ele havia comprado por US$ 5 milhões foi vendida por um valor mais de mil vezes maior.
Mas o número mais revelador não é o retorno financeiro de Jobs. É o fato de que a Disney pagou US$ 7,4 bilhões para comprar exatamente aquilo que tentou esvaziar com um contrato desequilibrado quinze anos antes. Os personagens, as histórias, o talento criativo, a reputação: tudo que o contrato de 1991 tentou manter fora do alcance da Pixar acabou sendo o ativo que a Disney precisou pagar caro para ter.
A lição não é sobre persistência no sentido genérico da palavra. É sobre uma escolha específica: a Pixar poderia ter aceitado o papel de fornecedora de tecnologia, entregado os personagens e continuado existindo como prestadora de serviços. Teria sobrevivido, provavelmente. Mas não teria construído nada que fosse seu. A decisão de resistir ao contrato predatório, de reescrever o roteiro rejeitado, de manter a equipe criativa unida mesmo com produção paralisada, foi o que criou o ativo que a Disney eventualmente precisou comprar.
Quando alguém tenta negociar removendo o que você tem de mais valioso, a questão não é se o contrato é aceitável. A questão é se você sabe o que está sendo tirado de você.





